domingo, agosto 27, 2006

O AVENTUREIRO DE ILUSION 1

1- A DECISÃO

—Não exigimos pagamento, por outro lado não é correto a OPU receber sessenta por cento das doações, quando as despesas não somam nem dez por cento delas.

—É assim que o OPU trabalha. Temos compromissos para pagar e cumprir. Vocês concordaram em trabalhar gratuiitamente, agora não há como mudar.

—O que queremos é que vocês expliquem para onde foi o dinheiro das doações, uma vez que não cobramos e nem estamos cobrando pelo nsso serviço?

Esta discussão ouvida em clareira na selva centro-africana dá o inicio deste relato. Ela aconteceu num forte calor do sol das onze horas, agravado pela umidade da floresta, deixando o ambiente como um forno. Estas circunstâncias, em nada ajudaram o lado das quatro pessoas acostumadas com a dura e difícil vida dos ambientes inóspitos, a obterem uma resposta a suas dúvidas.

Eles são aventureiros, exploradores, pessoas cuja profissão os coloca, seguidamente, em confronto com as mais difíceis regiões do planeta. Escalam montanhas, exploram vulcões, executam travessias em rios inavegáveis, adentram em florestas, conhecem qualquer canto do mundo, onde a geografia é difícil e os caminhos são inóspitos; o desafio é o seu meio de vida. Para eles, não existem obstáculos.

Se existir, eles os vencem. Animais selvagens? Domam. Caminhos intransitáveis? Transpõem. Indígenas selvagens? Eles os civilizam. São exploradores e entre eles esta Pedro Mauro.

Recém nascido, Pedro Mauro foi abandonado em frente a um hospital e aos oito meses de idade, adotado pela família que o criou. Dos seus pais naturais, nada se sabe. O pai adotivo, um fazendeiro, da velha estirpe, possuía uma fazenda herdada por testamento de um tio, cuja herança, na época foi contestada pelos outros sobrinhos do falecido.

O herdeiro e pai de Pedro Mauro, o “Seu” Jorge, assumiu a fazenda e passou a administrá-la da forma como aprendeu: Empiricamente. Para o “seu” Jorge, não existia “estas coisas de modernismo”. O administrador da fazenda era tratado como capataz, os demais funcionários, eram “peões”, técnicas e conhecimentos de produção e comercialização agrícola, continuaram da forma antiga, como foi ensinado pelo tio falecido. Jorge opunha-se de tal forma às tecnologias modernas, que até os técnicos, da empresa governamental para a assistência e pesquisas agrícola, uma das poucas das instituições na área governamental de comprovada eficiência, eram banidos, assim que chegassem à porteira da fazenda, literalmente.

—Sempre funcionou bem, com o “titio” porque mudar? Era a resposta invariável que o “seu” Jorge dava, quando inquirido sobre as inovações agrícolas. A bem da verdade a fazenda, tinha o seu toque de Midas. Os constantes financiamentos do Banco Oficial, os intermináveis empréstimos agrícolas e os “papagaios”, (sempre reformados e “rolados” para o futuro). Os seguros agrícolas que cobriam quaisquer inconveniências provocadas por “mau tempo”, que viessem perturbar o fluxo do dinheiro, facilmente saído dos caixas do Banco, com destino à conta bancária da fazenda.

O pai adotivo do Pedro Mauro era daqueles fazendeiros “sábios” que usam os recursos dos financiamentos descritos acima, como moeda para compra de cargos nos postos do governo de Ilusion, financiando campanhas políticas. Foi assim que o pai de Pedro Mauro chegou a ser chefe do departamento de turismo do governo. Ficou conhecido por tentar implantar uma diretriz, tornando obrigatório aos turistas estrangeiros o aprendizado da língua do país, caso contrário, não receberiam o visto de entrada:

Será considerado um invasor imperialista, todo o turista que entrar no país, sem falar e ler o português. Como nós, no país do Pedro Mauro, falam o português.

Esta foi uma entre muitas de suas “sábias” determinações, enquanto ocupou o cargo.

É comum, também, com estes tipos de “empresários”, trocarem o seu apoio ao governo e, em retribuição, seja desapropriado das próprias terras, em beneficio dos USF (Urbanóides Sem Fazenda), porém recebendo gordas indenizações, muito acima do valor real da terra com suas benfeitorias e, tudo, obviamente acertado antecipadamente. Foi daí a origem da herança deixada pelo pai, adotivo, de Pedro Mauro, para a viúva e ao filho, adotivo, ao morrer.

Pedro Mauro, hoje com trinta anos, é totalmente diferente do seu padrasto. Deste jovem, foi muito cônscio dos valores entre o certo e do errado, por isto saiu cedo de casa. Com dezessete anos descobriu a vocação da aventura. Fez parte de uma excursão ao Pico da Sabedoria, ainda próxima de sua casa. Com o passar dos anos e, de aventuras em aventuras, chegou aos píncaros desta pequena seita.

A dos aventureiros.

Assim ficou conhecido, até o dia que Pedro Mauro foi indicado pelo governo de Ilusion, para participar do grupo que daria assistência a OPU na operação de socorro, em meio a uma desavença tribal, que na África Central, muitas vezes é resolvida nos campos de batalha. As equipes de socorros necessitavam do apoio e conselhos de quem tivesse experiência naquelas circunstâncias e em ambientes como aquele, no planejamento da ajuda.

Qual o melhor caminho?

Quais os melhores locais para fixar os acampamentos?

Quais as características do clima e da geografia local? Informações deste tipo, para que se se estabelece uma eficiente rede de intendência, e assim fazer o socorro chegar ao destino.

A OPU, representada naquela reunião, pelas outras cinco pessoas, é uma organização com sede em Paris, fundada com objetivo de intervir no auxilio de vitimas em lugares conflagrados por desastres e conflitos. É chefiada por um francês, mas de origem desconhecida, Cof Koff Ahn Hahamnn, que tomou a si a tarefa do socorro daquela crise. O detalhe desta organização é que ela tem o monopólio para recebimento dos donativos; só a OPU, receberia os donativos, tudo em dinheiro e depositados num éden fiscal.

Pedro Mauro e seus companheiros ao tomarem conhecimento, da cobrança de um pedágio e de taxas de administração para o gerenciamento do socorro e da retenção pela OPU, de sessenta por cento do valor doado e, uma vez que nem ele nem os demais aventureiros estavam cobrando qualquer valor, nem mesmo para cobrir as suas despesas, sentiram-se afrontados. Nesta reunião, nada ficou resolvido. A ordem de Cof Koff aos seus representantes foi:

Não cedam.

A OPU tida como uma organização acima de qualquer suspeita, a qual é procurada por muitos países como mediadora de crises, em muitas e estranhas circunstâncias.

Não seriam os quatro aventureiros que a colocaria sob suspeita.

Terminada a querela, Pedro Mauro, uma pessoa, ainda com muita energia, passou a refletir sobre os acontecimentos e, uma coisa leva a outra, aflorou-lhe, novamente a idéia que já o acalentara. Parar com as suas aventuras. Os complicados planejamentos, os preparativos, os altos riscos, os estudos de viabilidades operacionais e financeiras, as cansativas buscas por financiamentos e o desgaste na procura de patrocinadores, já ofuscavam o gosto pelos riscos e da agitação das viagens de exploração. Ultimamente sua mãe Gertrude e a namorada Augusta, vinham pedindo-lhe para diminuir as suas longas ausências e por fim, a decepção com a OPU, a idéia de uma vida mais tranqüila acabou tomando vulto. No meio deste labirinto existencialista, uma estação de televisão local, a TV Universo, o convidou para participar de um programa especial sobre aventureiros e aventuras. O dinheiro oferecido vinha ao encontro deste e de outro projeto que o acalenta. Contar suas aventuras e desventuras num livro.

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