domingo, agosto 27, 2006

O AVENTUREIRO DE ILUSION 2 (continuação do 1)

2-AVENTURAS NUM DOCUMENTÁRIO DE TV

Pedro Mauro aceitou o convite, uma decisão que acabou lhe tomando quatro meses, entre os preparos, os ensaios, a escolha do material, das fotografias e filmes, tudo o que fosse relacionado à suas viagens de aventuras, para preencher o espaço de um documentário. A seqüência da entrevista e o casal de entrevistadores, Veredito Falaz e a Ana Maria foram os apresentadores escolhidos pela emissora. Preocupou, um pouco a Pedro Mauro, a leitura das pautas e resumos do documentário. Foi uma preocupação passageira e logo esquecida, afinal não o sensibilizou o breu cultural, ali contido. Pretendia apenas tornar pública, suas histórias, pensando no futuro livro.

Com a finalidade de dar tempo com a maquiagem e outros preparativos do programa, os técnicos da emissora pediram que Pedro Mauro chegasse com três horas de antecedência, no dia da apresentação.

Contudo, o verdadeiro motivo para tanto, era o de preparar Pedro Mauro de como deveriam ser respondidas certas perguntas.

O que nem Pedro Mauro e nem a emissora contavam, foi com um pequeno e rotineiro incidente, muito comum em Ilusion. O trajeto, usado por ele para chegar na estação, inclui uma avenida que passa entre duas favelas e no exato momento em que Pedro Mauro, por ali transitava, duas quadrilhas de traficantes resolveram expor seus “argumentos” sobre uma difícil negociação; a qual delas, pertenceria determinado ponto de venda de drogas. Simplesmente, começaram a trocar tiros; uma gang num lado da avenida e a outra no lado oposto. O mais sensato para os transeuntes. Descer rapidamente dos veículos e procurar abrigo, deitando entre as muretas que separam as pistas. A troca de opiniões, sustentada pelos incisivos argumentos levou mais de duas horas, fazendo que Pedro Mauro atrasa-se e chegando ao compromisso com apenas quinze minutos, antes do programa ir ao ar. Pouco tempo para os preparos da entrevistas. A emissora que estivera a ponto de suspender a entrevista, resolveu levá-la ao ar assim mesmo.

Veridito Falaz iniciou o programa com a apresentação:

—Boa noite. Hoje, neste programa, mostraremos o mundo da aventura. Estaremos entrevistando o maior aventureiro do país, o senhor Pedro Mauro.

—Boa noite. Disse Ana Maria. E imediatamente perguntou. —Senhor Pedro Mauro, o senhor, que andou no “sub-mundo” da aventura, o que tem para nos contar, de melhor delas?

—Boa noite. Não foi no sub-mundo que eu andei. Aventurei-me por um mundo desconhecido pela maioria das pessoas, mas nem por isso, um mundo inferiorizado. O melhor, de qualquer um dos lugares por onde andei, foi, depois de conquistado o objetivo, saber que o homem tem força para enfrentar e até vencer os seus desafios.

—Senhor Pedro Mauro! O senhor viajou ao México? É verdade que lá o senhor visitou um vulcão ainda ativo.

—Sim. O vulcão Popocatépetl. Sua última erupção foi em Fevereiro de 2003. Ele tem uma altura de 5,452 e a boca um diâmetro de 900 metros...

Nisto interrompe a entrevistadora Ana Maria.

—Para quem não sabe, diâmetro é esta medida aqui... Falou ela, acompanhando com o dedo indicador, a borda do vulcão, numa foto aérea fornecida por Pedro Mauro.

—Nós da televisão Planeta temos o dever de: além de informar e entreter, também de educar, por isto a interrupção da minha colega Ana Maria. Foi o comentário do Veredito.

—Bem... é.. O diâmetro, na verdade, é uma linha reta, que alcança as duas bordas do círculo, passando pelo seu ponto central... Ele é o dobro do raio, como se diz na geometria. Complementou Pedro Mauro. Neste momento, um leve sintoma de desconforto foi sentido por quem assistia a entrevista com mais atenção. Ana Maria retomou a iniciativa e fez a pergunta seguinte:

—Senhor Pedro Mauro, não foi no monte Maquiné, que a população da cidade vizinha, o esperava no topo, para terem informações sobre o nosso presidente da Republica?

—Monte Maquiné!? Eu não conheço. Sei que existe uma ave da família fringilídea e também uma gruta muito interessante e bonita, no Brasil, mas monte...? Com este nome? Não conheço, não. E nunca fui procurado por pessoas, em lugar algum para saber sobre nosso presidente.

—Nesta sua última viagem, o senhor não escalou o monte Maquiné, na África? Repetiu Veredito.

—A minha última escala foi no monte Mckinley, pela escarpa sul, no Alasca, o estado norte americano, com mais ou menos um terço do seu território no círculo polar Ártico e que é separado do resto do país, pelo Canadá. Achou conveniente a explicação. —E garanto que no Alasca central, são pouquíssimas as pessoas interessadas no nosso presidente. Pelo menos, não a ponto de subirem seis mil metros de um morro gelado, para perguntarem sobre ele.

Uma nova intervenção do Veredito.

—Após o intervalo voltaremos com a entrevista e mostraremos as imagens das aventuras de Pedro Mauro. E entrou a propaganda.

Pedro Mauro percebeu a situação. Teve certeza de que havia algo, quando o entrevistador e o diretor do programa pediram para ele ser mais cooperativo. Mesmo diante de um monitor de televisão, mostrando o que estava indo ar, Pedro Mauro não pode perceber.

Um pouco antes de a entrevista retornar ao ar, a emissora colocou um editorial explicativo. Neste momento o som do monitor foi desligado, mesmo que ele olhasse a imagem, ela não teria significado, sem o som.

—“A Rede Planeta esclarece que: Ao contrário do que disse nosso entrevistado, a população da cidade próxima do monte Mckinley, já estava no cume do monte, esperando-o para saber sobre o nosso presidente, sim. Na verdade a população do Alasca ficou revoltada com o governo americano, porque o monte citado foi o motivo da invasão ao Iraque. Explica-se. O “estadista” Sadam Husseim pediu para que o Monte Mckinley passasse a se chamar Monte Maquiné, em homenagem a uma ave de nosso país, Ilusion, pássaro já citado pelo nosso entrevistador. Descontente com este pedido do Estadista Iraquiano, presidente americano resolveu invadir o Iraque, usando a mentira sobre armamentos químicos e atômicos. A população do Alasca em retaliação contra o seu próprio governo, agora chama o Monte de Maquiné. O estranho foi o nosso entrevistado dizer que não sabia do fato”.

Para os editores da emissora o tal monte Maquiné, de um momento para outro se desmaterializou na África, onde nunca existiu, para se materializar no Alasca. Pedro Mauro nada soube desta explicação. Augusta e outros conhecidos que assistiam ao programa tentaram avisá-lo, mas seu telefone celular estava desligado. Só veio a tomar conhecimento depois de encerrada a entrevista, já em casa.

A partir deste momento, a entrevista passou a ser um documentário. Mostrou fotos e filmes, umas poucas fotos de Pedro Mauro, ele, geralmente de costas e, acabaram prevalecendo apenas os comentários dos entrevistadores. Diante de cenas de uma viagem à Islândia, fizeram notar, aos espectadores, o fato de não haver carnaval naquele país. Pelo menos não igual ao do nosso país e, como aquelas pessoas têm enormes dificuldades em sambar. —Como são “duros de molejo”. Os interessantes comentários da dupla entrevistadora.

—O que adianta terem bom padrão de vida, serem alfabetizados e bom atendimento médico, se nem sabem sambar. Sambar é uma característica de alta intelectualidade de um povo. (É importante que se diga, que o samba, carnaval e o futebol, são umas das poucas afinidades que o país de Pedro Mauro mantém com o Brasil). O programa continuou, com Pedro Mauro sendo um figurante secundário, um pássaro fora do ninho. Entre outras afirmações estranhas e ficções surrealistas, falou-se a respeito de uma pista de aeroporto no Sudão, que, segundo os comentários do Veridito e Maria, as autoridades locais, pressionadas pela população, aumentaram a extensão da pista para que fosse possível o pouso do novo avião presidencial, trazendo o presidente do país de Pedro Mauro e a seleção de Nacional de futebol, para um jogo que jamais se cogitou. Como Pedro Mauro perdeu o foco da atração, os espectadores não viram suas expressões como de alguém ao meio do estouro de uma manada de elefantes. Realmente: calar-se, foi a melhor atitude. Foi o que seu bom senso indicou para naquele momento.

Por pouco, um outro acontecimento não coloca Pedro Mauro em uma situação mais difícil, durante o programa. A emissora tentou aplicar o seu plano emergencial, para casos especiais, quando o entrevistado não é cooperativo. O plano “Recupéro”.

Ele não tinha como saber, mas o plano “Recupéro” esteve pronto para entrar em ação. Este plano consiste em que, uma pessoa da emissora, de preferência o entrevistador ou o diretor do programa durante os intervalos, converse com o alvo (o entrevistado) e passe a fazer perguntas comprometedoras ou armadilhas. Enquanto isto o chefe de comunicação, na mesa de controle, fica com as mãos prontas para acionar o botão que libera o som e a imagem aos canais de satélites. Assim enquanto no canal aberto da emissora transmite a propaganda os canais de assinaturas, passam a receber via antenas parabólicas o sinal da conversa, que deveria ser informal. O hábito de Pedro Mauro calar-se quando encurralado, salvou-o da armadilha.

Após dois intervalos e de encurtar a duração do programa a entrevista terminou. Ninguém se dirigiu à Pedro Mauro, apenas um auxiliar para lhe mostrar a porta de saída.

Um outro efeito da mal fadada entrevista foi a desistência pelos responsáveis da campanha do Governo Federal, patrocinado pela emissora, “O Cidadão que Faz”, em utilizarem Pedro Mauro como o próximo personagem da campanha. No seu lugar, foi escolhido o “empresário” Rolantão.

Uma rápida explicação sobre este empresário (?). Ele fez fortuna atuando no ramo de “distribuição e encomendas”. Mas sua grande obra foi a seguinte idéia: Obteve, de maneira informal, como manda sua ética, a permissão da autoridade da penitenciária local, para montar um escritório em sua cela. Em pagamento ele providenciou um substantivo aumento do vencimento de alguns funcionários, sem onerar a folha de pagamento do Estado e com isto sem aumentar custo fixo do sistema carcerário. O negócio deu tão certo, que ele passou a habilitar, informalmente os novos franqueados. Hoje é dono de uma grande rede de franquia nas penitenciárias, evidentemente, informal. , seu micro

Pedro Mauro considerou a entrevista um grande fracasso, mas não avaliou um fator muito importante na mídia televisionada.

Os índices de audiências das emissoras são proporcionalmente o inverso, potencializado por três, da sua consistência em qualidade cultural e intelectual. Por isto, mesmo tendo uma exposição de imagem prejudicada pela emissora conseguiu o objetivo almejado. Ficou conhecido do público.

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