sábado, setembro 02, 2006

O AVENTUREIRO DE ILUSION 3 (continuação do 2)

3- EM TERRA DE LEIS

Assim, graças ao programa na TV, Pedro Mauro foi convidado para conceder novas palestras, dar cursos com temas variados: assuntos que iam da auto-estima pessoal ao planejamento doméstico, convidado para festas, coquetéis; até uma instituição de apoio aos empresários e empreendedores do país o convidou para proferir uma série de palestras e cursos de sobrevivência no mundo dos negócios, direcionada para empresários.

As referências feitas nas palestras, sobre a importância do planejamento, a necessidade de acuidade aos detalhes, da elaboração de cronogramas e seus acompanhamentos, dos fluxos financeiros e de materiais, assuntos ligados tanto aos preparativos das aventuras como na preparação de uma empresa, acabou facilitando seu relacionamento com os consultores e instrutores da Instituição. Aconteceu que, depois de um destas palestras, acompanhado de seus novos amigos, num dos restaurantes da moda, sob o pós-efeito de muita e boa comida e, ainda mais, de bebidas, conversando sobre as semelhanças existentes entre uma perigosa excursão e o gerenciamento de uma empresa, quando Lucas, o consultor o qual Pedro Mauro tinha mais contato, passou a insistir com ele para comercializar a sua marca e a experiência adquirida com as aventuras.

— É só você criar uma empresa e uma marca comercial. Disse a Pedro Mauro, nesta altura com a adesão dos demais consultores presentes.

— Você já tem tudo: o conhecimento do assunto, o nosso apoio, o seu carisma, você já é conhecido no “mercado” e principalmente: tem o capital. Falou o Lucas.

Ser um executivo, não estava entre suas pretensões, mas a insistência dos consultores foi de tal monta, que acabou por convencê-lo.

— Pedro Mauro. Você tem nosso apoio e nossa assessoria, o que pode dar errado? Com esta frase, venceram a última resistência de Pedro Mauro, que já andava preocupado com o destino do seu capital. O dinheiro tão dificilmente arrecadado com os patrocínios, com o programa de TV e a herança deixada pelo pai. Explica-se que na partilha, a mãe do Pedro Mauro, preferiu ficar com a metade, composta pelos imóveis, deixando a parte liquida, para o filho. Um razoável valor em dinheiro. Tudo totalizando de quatrocentos e cinqüenta mil Reais. O livro perdeu a prioridade.

Começa uma nova aventura. A empresa: O EXPLORADOR LTDA.

O EMPREENDEDOR

Tomada a decisão, ficou pra trás o tempo de aventuras nas terras selvagens e sem leis. Pedro Mauro agora é um empresário no firme e estável terreno de um país de leis. Os eventos passam a ser previsíveis. Adeus às preocupações com as perigosas armadilhas da natureza, com as traiçoeiras trilhas, rios caudalosos, florestas de climas opressores, animais ferozes, as OPU’s do mundo. Agora a civilização. É verdade, continuam as preocupações com os planejamentos, com as atenções aos detalhes.

Os fatores externos? A partir de agora, ficam neutralizados pela ciência política das leis, num país civilizado. Agora ele passa a depender apenas da sua capacidade de contornar problemas, de calcular os riscos e decidir as melhores opções; depender apenas dele e da sua acuidade, hábitos adquiridos nas aventuras ao longo dos anos.

Contudo, uma variável Pedro Mauro não considerou! E isto acabaria custando caro. Muito Caro! Os meandros das leis. Os contáveis e obscuros obstáculos do novo jogo. O seu país esta passando por transformações: de aparências sutis, mas profundas. Um novo governo que se denomina republicano social, têm entre suas doutrinas, a aversão pelo individuo empreendedor. Mas graças uma bem elaborada propaganda, se mostram favoráveis ás iniciativas empresarias, contudo, nas profundezas do areal legislativo, promovem obstáculos, algumas verdadeiras armadilhas mortais.

A Constituição Federal do país é tão volumosa que a antiga Enciclopédia Britânica, com todos seus volumes, não passa de uma pequena agenda de bolso, se comparadas. Até a diferença do nível em milímetros, que um elevador pode ter para cima ou para baixo, ao parar num determinado andar de um edifício, esta prevista na Constituição e como o elevador deve sempre parar no mesmo nível do piso, esta lei foi inserida nos capítulos “Férreos” da Constituição. As leis que fazem parte dos capítulos Férreos, são assim chamadas por serem, em principio de características imutáveis. Características estas, que a população sente diariamente no corpo e na alma.

No momento, o grande sucesso no país, é o novo programa de desburocratização, anunciando as facilidades nos procedimentos e normas para constituir e organizar uma empresa. Dizem os anúncios:

Basta levar os documentos necessários até a Junta do Comércio, para se dar entrada no registro da sua tão sonhada empresa. Não tem mais burocracia”.

A antiga Via Sacra impostas aos empresários, no passado acabou. Não precisam mais se dirigir aos departamentos Municipais, Estaduais e Federais; da receita federal, da previdência, tudo acabado. Tudo ficou muito fácil. São os novos tempos de uma nova ordem.

Seguindo os conselhos dos amigos consultores, Pedro Mauro contratou um contador, O Senhor Armando e um advogado, Dr. Jacinto. Também se viu obrigado a contratar por tempo integral um administrador de Empresas. Sim agora na nova era, se faz necessárias a presença do Administrador e que também assine no contrato social como o Administrador responsável. Uma Imposição da desburocratização. Os três, contatados e contratados o passo seguinte: Ir até o contador para levar a documentação. Nesta oportunidade o Sr. Armando, o contador, lhe mostrou a lista atualizada da documentação necessária ao registro na Junta do Comércio, obedecendo ao espírito da nova ordem vigente no país:

1. Registro no cadastro geral de pessoa física;

2. Registro no PCI – o cadastro de Pagador Cativo de Impostos. (uma espécie de adendo do item anterior);

3. Registro de identidade;

4. Certidão de nascimento, para provar que o interessado nasceu e que existe;

5. Atestado de bons antecedentes;

6. Título de eleitor;

7. Certidão de alistamento militar;

8. Certidão de baixa militar se foi incorporado, caso contrário o certificado de dispensa;

9. Certidão da ultima internação hospitalar. Se houver;

10. Certidão da última alta hospitalar. Se houver;

11. Certidão negativa de débito com a previdência e aposentadoria social;

12. Certidão negativa de débito com o governo Federal;

13. Certidão negativa de débito com o Estado;

14. Certidão negativa de débito com o Município;

15. Certidão positiva de casamento, se casado;

16. Certidão positiva que é mentalmente capaz;

17. Certidão de residência;

18. Certidão positiva de alfabetização. Caso contrário o título de eleitor serve;

19. Certidão, que será definida qual, depois de compridas todas as fases do registro;

20. Três fotos 3x4. Caso a pessoa seja portadora de bigode e/ou barba, é necessário um atestado da delegacia de policia, juntando mais três fotos sem os aparatos faciais;

21. Contrato social digitalizado em papel A4, fonte 12, espaço 1,5 e que não conste em nenhuma parte do contrato as palavras: rápido, eficiente e normal. (Estas palavras sugerem indiretamente uma ofensa aos órgãos desburocratizados do país). No mínimo duas e no máximo dez páginas.

22. É proibida a participação de sócios cônjuges; A exceção dos divorciados litigiosamente, deste que mediante a apresentação de uma declaração da mãe do cônjuge, confirmando o estado de litígio, abonada por assistente social juramentado(a) do Fórum da Comarca sede da empresa e três testemunhas não filiais aos ex-conjuges. Todas as assinaturas com firmas reconhecidas.

23. O contrato social deve levar as seguintes assinaturas;

  • Do(s) sócio(s)-diretor(es);
  • Do contador (como responsável contábil);
  • Do advogado (como responsável jurídico);
  • Do administrador (como responsável administrativo);
  • Do vizinho mais próximo ao endereço onde se situará a empresa (como responsável da atividade de caráter social da empresa);
  • Do Gerente do Banco, na qual o sócio diretor tenha conta. (Pedro Mauro como pessoa de reconhecimento público e com o aval dos consultores foi dispensado deste e do item 17).

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